VIOLÊNCIA DE GÊNERO: O trabalho com violência de gênero como questão de saúde

O movimento de mulheres que reemerge na década de 60 teve o mérito de introduzir na agenda política questões que estavam antes restritas à esfera supostamente despolitizada e neutra da vida privada, trazendo para o debate público temas como a sexualidade e o corpo feminino. Estes temas são colocados como centrais na luta das mulheres pelo reconhecimento de sua condição de cidadãs, sujeitos capazes de decidir sobre as próprias vidas e sobre suas escolhas reprodutivas e sexuais. Nesta direção, o movimento denun-cia o papel de controle e tutela sobre as mulheres exercido por instituições como religiões, família, medicina e Estado, e ropõe relações sociais baseadas na eqüidade entre homens e mulheres. Como em outros países, no Brasil o movimento tem tido um papel fundamental na crítica dos modelos de atenção à saúde e na proposição de alternativas, demonstrado na formulação e luta pela implementação do Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Paism). Este conceito de atenção integral propiciou que fossem reconhecidas questões relevantes para as mulheres, porém novas para o campo da saúde. Nestes programas que se desenvolvem a partir da década de 80, uma das questões que emerge e passa a se tornar importante dentro da área de saúde é a da violência. A demanda feita pelo feminismo de que o Estado, por meio de suas políticas sociais — em especial as da saúde — incorporasse as reivindicações e perspectivas das mulheres, foi uma das frentes de trabalho escolhida pelo movimento (Ávila, 1993). Nesta direção, muitas foram as ocasiões em que as próprias integrantes, muitas das quais oriundas da área de saúde, como profissionais e ou ativistas, assumissem cargos públicos. Ao final daquela década, alguns programas pioneiros dentro e fora das políticas de saúde, como os do município de São Paulo, passam a incorporar a assis-tência aos casos de violência sexual e doméstica, desenvolvendo redes de referência para viabilizá-la. Tal trabalho pioneiro, que contou com a participação de integrantes do Coletivo, veio a inspirar um conjunto de políticas semelhantes em outros municípios brasileiros. (...)

Simone G. Diniz


Tolerância social à violência contra as mulheres

“Homem que bate na esposa tem que ir para a cadeia”. Concordaram com esta afirmação, total ou parcialmente, 91% dos entrevistados em maio e junho de 2013 pelo Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) do Ipea. A tendência a concordar com punição severa para a violência doméstica transcendeu as fronteiras sociais, com pouca variação segundo região, sexo, raça, idade, religião, renda, ou educação. Nada mais, nada menos que 78% dos 3.810 entrevistados concordaram totalmente com a prisão para maridos que batem em suas esposas. Além disso, 89% tenderam a discordar da afirmação “um homem pode xingar e gritar com sua própria mulher”. (...)